Sua mãe atende o telefone e ouve a sua voz. Você está chorando, diz que bateu o carro e precisa de dinheiro agora. A voz é sua, o jeito de falar é seu, até o apelido que você usa com ela está ali. Só que não é você. É uma inteligência artificial que aprendeu a sua voz com um vídeo de 30 segundos que você postou no Instagram. Bem-vindo aos golpes com inteligência artificial.
Esse tipo de fraude deixou de ser coisa de filme. Hoje, eles chegam pelo WhatsApp, por videochamada, por anúncio no feed e até pelo sistema de biometria do seu banco. E a maior parte das dicas que circulam por aí para se proteger já está vencida.
Neste artigo, vou mostrar o que mudou, quais são os golpes com IA que mais crescem, por que os “sinais de deepfake” que te ensinaram não funcionam mais e o que funciona de verdade. No fim, também explico quem responde quando a máquina engana você.

O que mudou: golpes com inteligência artificial ficaram baratos
Na prática, o ponto central é simples. Antes, falsificar a voz ou o rosto de alguém exigia tempo, equipamento e conhecimento. Agora, exige um aplicativo e alguns minutos. Segundo dados apresentados pela empresa de segurança VU em setembro de 2026, os golpes com deepfake cresceram 830% no Brasil entre 2024 e 2025. Além disso, o conteúdo sintético já aparece em cerca de uma em cada 15 fraudes detectadas no país.
Em outras palavras, o criminoso não precisa mais ser bom. Ele só precisa de uma ferramenta. E isso muda o jogo para todo mundo.
Os golpes com inteligência artificial que mais crescem
1. A voz clonada do parente
Basicamente, é a versão com IA do velho golpe do falso sequestro ou do “filho em apuros”. O criminoso pega áudios públicos, como vídeos em redes sociais, e gera uma voz idêntica. Depois, liga para os pais ou avós pedindo dinheiro com urgência. Como a voz convence, a desconfiança some.
2. A videochamada com o chefe falso
Em 2024, um funcionário de uma multinacional de engenharia em Hong Kong transferiu cerca de US$ 25 milhões depois de uma videochamada com o diretor financeiro e outros colegas. Todos na tela, exceto ele, eram deepfakes. Desde então, esse caso virou referência mundial. No Brasil, a mesma lógica já aparece em pedidos de pagamento urgentes dentro de empresas.
3. O famoso que “recomenda” o investimento
Nesse caso, vídeos falsos de médicos, apresentadores e empresários conhecidos aparecem em anúncios pagos vendendo remédios milagrosos, cursos e investimentos. Em março de 2026, a própria Meta anunciou ações na Justiça brasileira contra redes que usavam deepfakes de famosos em anúncios.
4. O rosto falso que abre conta no banco
Esse é, sem dúvida, o menos visível e talvez o mais perigoso. Criminosos usam vídeos manipulados para enganar a biometria facial de bancos e abrir contas ou contratar empréstimos em nome de outras pessoas. Ou seja, em vez de apontar o rosto para a câmera, eles injetam um vídeo pronto no aplicativo. Para o sistema, parece uma pessoa real piscando e sorrindo.
5. O deepfake íntimo usado para extorsão
Aqui, fotos comuns, tiradas de redes sociais, viram imagens íntimas falsas. Em seguida, o criminoso ameaça divulgar o material se a vítima não pagar. Ou seja, a pessoa nunca fez aquela foto, mas sofre o mesmo medo e a mesma exposição.
6. Golpes antigos com roupa nova
Além disso, a IA também turbinou golpes conhecidos. O golpe do falso advogado ganhou documentos com cara de oficial e até voz clonada. Já o golpe do amor e o golpe das tarefas passaram a usar robôs que conversam com centenas de vítimas ao mesmo tempo, sem erro de português e sem cansar.
Por que os “sinais de deepfake” não funcionam mais
Até pouco tempo atrás, a orientação era procurar defeitos: piscada estranha, boca fora de sincronia, mãos com dedos a mais, voz robótica. Essas dicas eram boas em 2023. Hoje, porém, elas criam uma falsa sensação de segurança.
Primeiro, porque a tecnologia melhora a cada mês. Além disso, o golpe quase sempre acontece em condições ruins de propósito: áudio curto, ligação com chiado, vídeo com internet “caindo”. Tudo isso esconde as falhas. Por isso, quem confia no próprio olho acaba enganado justamente porque “conferiu” e achou que era real.
Então, a virada de chave é esta: pare de perguntar se o conteúdo é verdadeiro e passe a perguntar se o canal é verdadeiro. Um vídeo perfeito pode ser falso. Mas um retorno de ligação para o número que você já tinha salvo, não.
O método PARE contra golpes com inteligência artificial
No escritório, resumimos a defesa em quatro passos. Funciona para voz, vídeo, mensagem e anúncio:
- P de Pausa. Urgência é a assinatura do golpe. Se alguém pede dinheiro “agora”, essa pressa já é o primeiro alerta.
- A de Acione outro canal. Desligue e retorne por um caminho que você já conhecia: o número salvo na agenda, o telefone oficial do banco, o ramal da empresa. Nunca use o contato que veio na mensagem.
- R de Resposta combinada. Combine com a família uma palavra ou pergunta que só vocês sabem. A IA copia a voz, mas não sabe o nome do primeiro cachorro da família.
- E de Espere. Nenhuma emergência real some em 15 minutos. Assim, esperar para confirmar custa pouco. Pagar para um golpista custa muito.
Claro, parece simples demais. E é justamente por isso que funciona. Afinal, o golpe com IA é sofisticado na aparência, mas depende de uma coisa bem antiga: fazer você agir antes de pensar.
Teste rápido: você cairia?
Os golpes com inteligência artificial exploram situações do dia a dia. Clique em cada uma para ver a resposta.
Seu filho manda um áudio pedindo Pix para um amigo dele. A voz é idêntica.
Não pague. A voz pode ser clonada. Ligue para o número do seu filho que já está salvo ou faça a pergunta combinada.
Em uma videochamada, o dono da empresa pede uma transferência sigilosa e urgente.
Pare. Confirme por outro canal, com outra pessoa da empresa, antes de qualquer pagamento. Sigilo e urgência juntos são o padrão do golpe.
Um médico famoso recomenda um remédio em um anúncio patrocinado.
Desconfie. Anúncio com celebridade prometendo cura ou lucro fácil é um dos formatos mais usados com deepfake.
O banco liga, o número na tela é o oficial e pedem para você confirmar uma selfie.
Desligue e ligue você para o banco. O número na tela pode ser falsificado, e a sua selfie pode ser usada para abrir conta ou contratar empréstimo.
Golpes com inteligência artificial contra empresas
Já nas empresas, o risco é maior porque os valores são maiores. O ataque costuma mirar o financeiro, com e-mails, áudios e até videochamadas que imitam diretores. Por isso, algumas regras precisam virar processo, e não depender do bom senso de cada funcionário:
- Pagamento fora do fluxo normal exige dupla aprovação.
- Mudança de dados bancários de fornecedor só vale depois de confirmação por telefone já cadastrado.
- Nenhum pedido feito por áudio ou vídeo autoriza pagamento sozinho.
- O time sabe que pode, e deve, desconfiar do chefe quando o pedido foge do padrão.
Falamos mais sobre isso no artigo sobre o Scarlet Loop e os ataques com IA contra empresas.
O que diz a lei sobre deepfake e golpes com inteligência artificial
Hoje, ainda não existe uma lei geral sobre inteligência artificial no Brasil. O PL 2.338/2023, conhecido como marco legal da IA, já passou pelo Senado. Até a publicação deste artigo, porém, ainda estava em análise na Câmara.
Isso não significa que o golpe com IA fica sem punição. Pelo contrário, ele se encaixa em crimes que já existem, como estelionato e fraude eletrônica. Além disso, desde abril de 2025, a Lei 15.123/2025 aumenta pela metade a pena da violência psicológica contra a mulher quando o crime usa IA ou tecnologia que altere imagem ou voz da vítima.
Quem responde quando a IA engana você
Esse é, na verdade, o ponto que pouca gente discute, e onde está a maior chance de recuperar o prejuízo.
O banco que aceitou um rosto falso. Se uma conta foi aberta ou um empréstimo foi contratado com biometria burlada por deepfake, a falha é do sistema de segurança do banco. Pela Súmula 479 do STJ, as instituições financeiras respondem pelas fraudes de terceiros ligadas às suas operações. Quem escolhe a biometria como prova de identidade assume o risco de ela ser enganada.
As plataformas que lucram com anúncio falso. Em 2025, ao rever o artigo 19 do Marco Civil da Internet, o STF estabeleceu uma presunção de responsabilidade das plataformas por conteúdo ilícito em anúncios e impulsionamentos pagos, e também quando há redes de robôs. Nesses casos, a plataforma pode responder mesmo sem notificação, a não ser que prove que agiu com diligência e rapidez. A tese ainda passa por recursos no próprio STF, mas já indica o caminho. Assim, o anúncio com deepfake de famoso, pago e distribuído pela plataforma, deixa de ser “conteúdo de terceiro” comum. Fora do Brasil, a tendência é parecida: em setembro de 2026, um tribunal de Frankfurt, na Alemanha, responsabilizou a Meta por anúncios fraudulentos no Facebook e no Instagram.
Os bancos da cadeia do dinheiro. O golpe com IA termina, como qualquer outro, em um Pix para uma conta real. Por isso, valem as mesmas regras que explicamos no artigo sobre responsabilidade civil do banco em golpes via Pix.
Caí em um golpe com inteligência artificial. E agora?
- Avise o banco imediatamente e peça a devolução pelo MED.
- Salve tudo: o áudio, o vídeo, o link do anúncio e as conversas. Em golpe com IA, o próprio arquivo falso é prova.
- Registre boletim de ocorrência e diga expressamente que houve uso de voz ou imagem falsa.
- Denuncie o anúncio ou o perfil na plataforma e guarde o comprovante da denúncia.
- Se a sua imagem foi usada, peça a remoção. Veja como no nosso guia sobre remoção de conteúdo.
Perguntas frequentes sobre golpes com inteligência artificial
Dá para saber se um áudio foi feito por IA?
Nem sempre. Aliás, cada vez menos. Existem ferramentas de detecção, mas nenhuma é infalível. Por isso, a checagem pelo canal é mais segura do que tentar analisar o áudio.
Postar vídeos nas redes me deixa vulnerável?
Sim, porque aumenta o material disponível para clonagem. Mesmo assim, a solução não é sumir da internet. É combinar uma palavra de segurança com a família e nunca pagar sem confirmar por outro canal.
Usaram meu rosto em um anúncio falso. O que faço?
Guarde as provas, denuncie à plataforma e procure orientação jurídica. É possível pedir a remoção, a identificação dos responsáveis e indenização.
A biometria do banco é segura?
Ela ajuda, mas não é infalível. Nos golpes com inteligência artificial, a biometria virou alvo. Se alguém abriu conta ou contratou empréstimo com o seu rosto, o banco precisa responder por essa falha.
Em resumo, a tecnologia vai continuar evoluindo. A boa notícia é que a defesa mais eficiente não depende de tecnologia: depende de hábito. Quer ver na prática como os golpes são montados? Acesse a nossa Experiência interativa. Se você ou a sua empresa foram vítimas de um golpe com IA, fale com a Pardi e Morais.
Se você passou por uma situação parecida, veja como atuamos em golpes digitais ou fale com o escritório pelo WhatsApp.
Este artigo também está no portal Falando de Fraudes, iniciativa da Pardi e Morais com alertas diários sobre golpes.