As fraudes digitais deixaram de ser um problema restrito ao ambiente bancário e passaram a atingir diferentes aspectos da vida cotidiana. Segundo levantamento do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ligado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), 84% das tentativas de fraude relatadas pelos entrevistados ocorreram por meio de aplicativos de mensagens. Ligações telefônicas aparecem em seguida, com 79%, enquanto sites falsos foram citados em 71% dos casos. Entre as pessoas que relataram tentativas de golpe, 20% afirmaram ter sido efetivamente vítimas.
Diante desse cenário, a prevenção se torna uma das principais ferramentas de proteção. Para Afonso Morais, advogado especializado em fraudes digitais e sócio da Pardi & Morais Inteligência Contra Fraudes, o primeiro passo é entender que os criminosos não dependem necessariamente de ataques sofisticados para obter informações pessoais. Muitas vezes, a fraude começa com uma abordagem aparentemente comum.
“Hoje, o criminoso pode começar o golpe com uma simples mensagem. Ele tenta criar uma situação de urgência, se passa por uma empresa ou pessoa conhecida e procura obter uma informação, um código ou fazer com que a vítima clique em um link. Por isso, a primeira defesa é desconfiar de qualquer solicitação inesperada”, afirma Morais.
O que fazer ao receber uma mensagem suspeita
Ao receber uma mensagem suspeita, a principal recomendação é não interagir imediatamente. Não clicar em links, não fornecer códigos de autenticação e não realizar pagamentos antes de confirmar a solicitação por um canal oficial são medidas que podem interromper uma tentativa de fraude.
“Se uma mensagem provocar pressa, medo ou a sensação de que é preciso resolver alguma coisa imediatamente, pare. Não responda, não clique e não forneça informações. Procure a empresa ou a pessoa envolvida por outro canal e confirme se aquela solicitação realmente existe”, orienta Morais.
A atenção deve ser redobrada em mensagens que envolvam atualização de cadastro, bloqueio de conta, cobranças, supostos problemas bancários, ofertas muito vantajosas ou pedidos de transferência de dinheiro.
Proteção do e-mail deve ser prioridade
Outra medida importante para reduzir os riscos de fraudes digitais é reforçar a segurança da conta de e-mail. Segundo o especialista, esse acesso pode funcionar como uma espécie de porta de entrada para outros serviços digitais, já que muitos sistemas utilizam o endereço eletrônico para recuperação de senhas.
“Proteger o e-mail é fundamental. Se um criminoso consegue assumir essa conta, pode tentar recuperar senhas de outros serviços, acessar informações pessoais e ampliar o alcance da fraude. Por isso, a autenticação em dois fatores deve ser ativada sempre que estiver disponível”, explica.
A recomendação também vale para redes sociais, aplicativos de mensagens, serviços financeiros e outras plataformas que armazenem informações pessoais.
Autenticação em dois fatores aumenta a segurança
A autenticação em dois fatores é uma das ferramentas mais simples para aumentar a proteção das contas. Ela acrescenta uma camada de segurança além da senha, dificultando o acesso mesmo quando a credencial é descoberta ou roubada.
“Não basta ter uma senha forte se ela for a única barreira. A autenticação em dois fatores cria uma proteção adicional e deve ser utilizada principalmente nas contas mais importantes, como e-mail, aplicativos de mensagens e serviços relacionados à identidade digital”, destaca Morais.
O especialista também recomenda evitar a utilização da mesma senha em diferentes serviços. Caso uma credencial seja comprometida, a repetição pode permitir que o criminoso tente acessar outras contas.
O que fazer depois de cair em um golpe
Quando a pessoa percebe que foi vítima de uma fraude, a orientação é agir rapidamente. Dependendo do caso, pode ser necessário entrar em contato com a instituição financeira, alterar senhas, bloquear acessos, registrar a ocorrência e monitorar movimentações e contas vinculadas aos seus dados.
“Depois que a fraude acontece, cada minuto pode ser importante. A vítima deve preservar provas, como mensagens, e-mails, comprovantes e números de telefone, comunicar imediatamente as instituições envolvidas e buscar orientação para avaliar quais medidas precisam ser tomadas”, afirma Morais.
A preservação das evidências também pode ser importante para eventual contestação de operações ou adoção de medidas judiciais.
Educação digital ajuda a prevenir fraudes
O levantamento do Cetic.br aponta ainda diferenças relacionadas ao nível de instrução entre as pessoas que relatam ter sofrido tentativas de fraude. Para Morais, o dado reforça a importância de ampliar o acesso à informação e orientar pessoas com menor familiaridade com o ambiente digital.
“Não podemos transformar a vítima em responsável pelo crime. A prevenção passa por informação e educação digital. Famílias, empresas e instituições precisam ajudar as pessoas a reconhecer abordagens fraudulentas e saber o que fazer quando elas acontecem”, ressalta.
Entre as principais medidas para reduzir a exposição a fraudes digitais estão:
- Desconfiar de mensagens inesperadas, principalmente quando houver pedido de dinheiro, senha, código ou dados pessoais;
- Não clicar em links suspeitos recebidos por mensagens, e-mails ou redes sociais;
- Confirmar solicitações por canais oficiais, utilizando telefones ou sites acessados diretamente, e não os contatos enviados na mensagem;
- Ativar a autenticação em dois fatores nas contas mais importantes;
- Utilizar senhas diferentes para serviços distintos;
- Proteger especialmente o e-mail, por ser utilizado para recuperação de acesso a outras plataformas;
- Orientar familiares com menor familiaridade digital sobre golpes comuns;
- Em caso de fraude, agir rapidamente, comunicando bancos, plataformas e demais instituições envolvidas e preservando todas as evidências.
Para o advogado, a mudança mais importante é incorporar a segurança digital à rotina, assim como já ocorre com outros cuidados relacionados à vida financeira.
“A melhor defesa começa antes do golpe. Criar o hábito de desconfiar, confirmar informações e proteger as contas mais importantes reduz as oportunidades para o criminoso. Segurança digital precisa deixar de ser uma preocupação apenas depois que o problema acontece”, conclui Morais.