Se alguém está pedindo um Pix para “liberar” o dinheiro que ficou parado numa bet, é golpe. A devolução dos saldos depois da proibição das apostas é feita pelos bancos, para a conta de onde o dinheiro saiu, e a regra não prevê nenhum pagamento por parte do apostador.
O assunto explodiu nesta semana. O prazo para sacar voluntariamente o saldo das casas de apostas terminou na segunda-feira, 5 de outubro, como noticiou a Agência Brasil. As plataformas saíram do ar no dia 6. E justamente agora, entre 7 e 14 de outubro, o dinheiro de quem não sacou começa a voltar pelos bancos.
É o cenário perfeito para o golpista: milhões de pessoas esperando um dinheiro, sem saber direito como ele vai chegar. E a fraude já está rodando. A empresa de cibersegurança ZenoX identificou o chamado golpe do “saque fantasma”, com sites falsos de apostas que mostram um saldo inventado e cobram uma taxa para liberar o saque, segundo reportagem publicada hoje.
O que mudou com o fim das bets?
A Medida Provisória 1.394, de 25 de setembro de 2026, proibiu a exploração, a oferta e a publicidade das apostas de quota fixa no país. O texto está no site do Planalto. Para quem tinha saldo, o calendário divulgado pelo governo é este:
- até 5 de outubro: prazo para o saque voluntário, direto na plataforma;
- 7 e 8 de outubro: as empresas informam aos bancos quanto cada apostador tem a receber;
- de 9 a 14 de outubro: os bancos devolvem os valores;
- depois disso: a Caixa Econômica Federal cuida dos casos em que a devolução não deu certo.
Pela MP, o dinheiro volta de preferência para a conta de origem, aquela de onde saiu o depósito, com identificação pelo CPF. Se essa conta não estiver mais ativa, pode ir para outra conta do próprio apostador. O que sobrar vai para uma conta específica na Caixa.
Como funciona o golpe do saldo das bets?
O roteiro é quase sempre o mesmo. A pessoa recebe uma mensagem no WhatsApp, um SMS, ou vê um anúncio no Instagram ou no TikTok dizendo que tem um valor a receber das bets. Tem logo do governo, tem contagem regressiva, tem urgência.
Ela clica, cai num site com cara de oficial, digita o CPF e vê um saldo. Às vezes até maior do que esperava. Para liberar, pedem uma “taxa de processamento”, um “imposto” ou uma “tarifa de antecipação”. A pessoa paga por Pix e o saldo continua travado. Logo vem uma segunda cobrança. Depois, uma terceira.
No caso do saque fantasma, a ZenoX encontrou dados de mais de 3,6 mil pessoas cadastradas nesses sites falsos. Ou seja: além do Pix perdido, a vítima entregou CPF, telefone e às vezes dados bancários para criminosos.
Esse mecanismo de cobrar para liberar um dinheiro que não existe eu já expliquei no artigo sobre o golpe das tarefas. Muda o figurino, a lógica é a mesma. E o uso do nome do governo é o truque que vimos agora há pouco no golpe da multa eleitoral com site falso do TSE.
Como saber se a mensagem sobre o saldo é verdadeira?
O governo de fato mandou aviso pelo canal oficial do Gov.br no WhatsApp, como mostrou o Campo Grande News. Então receber uma mensagem não significa, sozinho, que é golpe. O que entrega a fraude é o pedido.
- pediu Pix, taxa, imposto ou depósito para liberar o saldo: golpe;
- pediu senha, código recebido por SMS ou foto do cartão: golpe;
- mandou link para um site que não termina em gov.br: desconfie;
- prometeu um valor maior do que você tinha na plataforma: golpe.
A regra é simples. Quem devolve é o banco, na conta que você já usava. Você não precisa pagar nada para isso acontecer. Na dúvida, confira no aplicativo do seu banco e nos canais oficiais do Ministério da Fazenda, nunca pelo link que chegou na mensagem.
Paguei a taxa. Consigo o dinheiro de volta?
Depende muito de rapidez. Assim que perceber o golpe, ligue para o seu banco, diga que foi fraude e peça a abertura do MED, o Mecanismo Especial de Devolução do Pix. Desde fevereiro de 2026 vale o MED 2.0, que permite seguir o dinheiro mesmo depois que ele pulou para outras contas. Expliquei o funcionamento no texto sobre o que mudou na devolução do Pix.
Depois, registre boletim de ocorrência e guarde prints da conversa, do site, do QR Code e do comprovante. Vejo toda semana no escritório gente que apagou a conversa de vergonha. Não apague nada. É a sua prova.
Se você ainda está nas primeiras horas, siga o roteiro do artigo Golpe do Pix: o que fazer nas primeiras 72 horas. Cada hora conta.
O banco tem responsabilidade nesse caso?
Pode ter, mas não é automático. A Súmula 479 do STJ diz que o banco responde por fraudes de terceiros ligadas à sua atividade. Só que o próprio STJ, em 2026, deixou claro que ela não se aplica sozinha. É preciso olhar o caso concreto.
O que eu costumo analisar: a transação fugiu do seu perfil? Foram vários Pix seguidos, em valores que você nunca movimentou? A conta que recebeu era nova e recebia dinheiro de dezenas de pessoas? No REsp 2.052.228, o STJ reconheceu que o banco tem o dever de identificar e barrar operações fora do padrão do cliente. E a instituição que abriu a conta usada pelo golpista também pode ter de responder, quando falhou na verificação.
Cada caso é um caso. Às vezes vale a pena brigar, às vezes não. Essa conta só se faz olhando os documentos.
E se o meu saldo das bets não cair até o dia 14?
Não entre em pânico e, principalmente, não procure “intermediário” para resolver. Pela regra, o que os bancos não conseguirem devolver vai para a Caixa, que passa a intermediar o resgate. Acompanhe pelos canais oficiais. Quem aparecer oferecendo “agilizar” a liberação mediante pagamento é golpista.
Agora, se a plataforma reteve seu dinheiro de forma irregular, ou se o valor devolvido estiver errado, aí existe caminho jurídico, inclusive pelo Código de Defesa do Consumidor.
Caiu no golpe do saldo das bets? Fale comigo
Se você pagou uma taxa para liberar saldo de bet, ou passou seus dados num site falso, não espere. Atendo vítimas de golpe do Pix com escritório em Alphaville. Veja como trabalho na página de advogado para golpe do Pix ou, se preferir, me chame no WhatsApp e me conte o que aconteceu.
Este artigo também está no portal Falando de Fraudes, iniciativa da Pardi e Morais com alertas diários sobre golpes.
Foto: Akshar Dave / Unsplash