Quem perde dinheiro em um golpe digital costuma pensar primeiro em registrar um boletim de ocorrência ou entrar na Justiça. Mas a recuperação de valores de golpes pode começar muito antes de uma ação judicial. Em muitos casos, as primeiras horas após a fraude são fundamentais para preservar provas, rastrear o dinheiro e seu caminho percorrido e adotar medidas que possam aumentar as chances de bloqueio dos recursos.
A velocidade é importante porque o dinheiro transferido pelos criminosos pode passar rapidamente por diferentes contas bancárias, instituições financeiras e carteiras digitais. Em fraudes envolvendo criptomoedas, os criminosos também movimentam os recursos entre diferentes endereços de blockchain.
Por isso, rastrear o dinheiro de um golpe exige uma combinação de conhecimento jurídico, análise financeira e tecnologia.
Como rastrear o dinheiro de um golpe
Segundo Danilo Pardi, sócio da Pardi e Morais Advogados e especialista em fraudes digitais, a investigação de uma fraude financeira precisa considerar tanto o caminho percorrido pelos recursos quanto as evidências que comprovam como o golpe aconteceu.
“As fraudes digitais exigem uma atuação multidisciplinar. Não basta conhecer o processo judicial. É necessário entender como o dinheiro circula no sistema financeiro, quais medidas podem ser adotadas imediatamente para tentar bloquear os valores e quais provas precisam ser preservadas antes que desapareçam”, afirma.
Na prática, o rastreamento financeiro parte da primeira transferência realizada pela vítima e busca reconstruir a sequência de movimentações.
Em operações bancárias e transferências via Pix, a análise pode identificar as contas que receberam os recursos e, quando disponíveis, outras contas pelas quais o dinheiro passou. A partir dessas informações, o advogado avalia medidas para localizar e bloquear valores que ainda estejam disponíveis.
Quando a fraude envolve criptomoedas, o procedimento é diferente. As transações registradas na blockchain permitem acompanhar a movimentação dos ativos entre diferentes carteiras e identificar possíveis pontos de conversão dos recursos para o sistema financeiro tradicional.
“Hoje existem ferramentas capazes de acompanhar o fluxo financeiro de forma bastante detalhada. Em operações bancárias conseguimos reconstruir o caminho do dinheiro entre diferentes contas. Já nas fraudes com criptoativos, utilizamos técnicas específicas para analisar as movimentações na blockchain e identificar os possíveis pontos de conversão dos recursos”, explica Pardi.
Por que as primeiras 72 horas importam para rastrear o dinheiro
Diferentemente de disputas judiciais convencionais, em que os fatos podem permanecer praticamente inalterados durante longos períodos, as fraudes digitais envolvem evidências e recursos altamente dinâmicos.
Os criminosos podem abandonar contas, transferir valores para outras instituições e pulverizar o dinheiro em diferentes contas. Quanto mais tempo passa, maior pode ser a dificuldade de localizar os ativos.
Por isso, as primeiras 72 horas após um golpe são consideradas uma janela crítica para organizar as informações, preservar evidências, iniciar o rastreamento financeiro e avaliar medidas destinadas a tentar bloquear os valores.
Isso não significa que, depois desse período, a recuperação seja impossível. Mesmo quando a vítima descobre a fraude mais tarde, ainda é possível investigar e rastrear o dinheiro. A diferença está na velocidade com que as informações e os ativos se movem.
Quais provas guardar depois de um golpe
A preservação das provas digitais é uma das etapas mais importantes para reconstruir a fraude.
Conversas realizadas por WhatsApp, Telegram ou outros aplicativos, e-mails, comprovantes de transferência, registros telefônicos, capturas de tela e endereços de sites ajudam a demonstrar como o golpe aconteceu e quais contas receberam os recursos.
“Muitas vítimas acreditam que basta guardar o comprovante da transferência, mas a documentação necessária costuma ser muito mais ampla. Quanto mais elementos forem preservados desde o início, maior a capacidade de demonstrar como o golpe ocorreu e de identificar o caminho percorrido pelos recursos”, ressalta o advogado.
Guarde, principalmente, estes materiais:
- comprovantes de Pix, TED e outras transferências;
- extratos bancários;
- conversas com os criminosos;
- e-mails e mensagens recebidas;
- números de telefone utilizados no contato;
- endereços de sites e plataformas;
- capturas de tela de aplicativos e supostos investimentos;
- dados das contas destinatárias;
- informações sobre carteiras de criptomoedas, quando houver;
- contratos, documentos ou arquivos enviados pelos fraudadores.
Por isso, a recomendação é evitar apagar conversas, alterar arquivos ou descartar informações que possam ajudar a reconstruir a sequência dos acontecimentos.
Rastrear o dinheiro exige atuação multidisciplinar
O rastreamento de recursos desviados dificilmente depende apenas da atuação jurídica. Por exemplo, em casos mais complexos, diferentes especialistas podem participar da análise para aumentar as possibilidades de localização dos ativos.
“Dependendo da complexidade da fraude, atuamos em conjunto com especialistas em tecnologia, peritos em computação forense, analistas financeiros e investigadores. A recuperação de ativos exige uma abordagem integrada, porque as evidências digitais e financeiras precisam ser analisadas de forma coordenada”, observa Pardi.
Essa integração é especialmente relevante em casos que envolvem múltiplas contas bancárias, transferências sucessivas, empresas de fachada, plataformas digitais ou criptoativos.
A combinação entre análise dos registros bancários, investigação das evidências digitais e conhecimento sobre a movimentação de ativos pode ajudar a reconstruir a trajetória do dinheiro e identificar possíveis pontos de recuperação.
O que fazer imediatamente depois de um golpe
Para quem percebe que caiu em uma fraude financeira, a principal recomendação é não esperar para agir.
A vítima deve reunir os comprovantes e demais evidências, comunicar imediatamente o banco ou instituição financeira envolvida, registrar a ocorrência e buscar orientação especializada para avaliar as medidas cabíveis.
Também é importante não fazer novas transferências que os criminosos pedirem. Em muitos golpes, os fraudadores alegam que é necessário pagar uma taxa, realizar um novo investimento ou transferir determinada quantia para liberar um suposto resgate.
Enquanto a vítima tenta negociar com os criminosos, porém, os recursos podem continuar sendo movimentados.
“Muitas pessoas passam dias tentando negociar com os criminosos ou acreditando que o banco resolverá tudo sozinho. Enquanto isso, os recursos continuam circulando e as chances de recuperação diminuem. As primeiras 72 horas costumam ser decisivas para preservar provas, iniciar o rastreamento e adotar as medidas capazes de aumentar as chances de bloqueio dos valores”, conclui Pardi.
Rapidez aumenta as possibilidades de recuperação
Cada golpe digital possui características próprias e não existe garantia de recuperação dos valores desviados. A chance de rastrear o dinheiro e bloquear recursos depende de fatores como a velocidade de comunicação da fraude, o caminho percorrido pelo dinheiro, a existência de valores ainda disponíveis e as informações que podem ser obtidas durante a investigação.
Ainda assim, rapidez, preservação adequada das provas e rastreamento financeiro especializado formam um conjunto importante para aumentar as possibilidades de localização dos recursos.
Em fraudes envolvendo Pix, contas bancárias ou criptomoedas, agir rapidamente pode fazer diferença justamente porque o dinheiro pode mudar de destino em questão de minutos ou horas.
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Este artigo também está no portal Falando de Fraudes, iniciativa da Pardi e Morais com alertas diários sobre golpes.